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O desabafo de Julia Katharine: “O cinema é um ambiente extremamente machista”


Foto: Micael Aquillah


por Fábio Sena

Na Mostra Cinema Conquista, o Papo de Cinema da terça-feira (3), no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, teve como tema “Das utopias da ficção às distopias da realidade”. Entre as pessoas convidadas, Julia Katharine – roteirista, atriz e diretora de Tea for Two, primeiro filme brasileiro dirigido por uma pessoa trans acolhido no circuito comercial.

A certa altura, vencida a etapa do debate, passada a palavra à plateia – ávida por manifestar-se dado o rico conteúdo da mesa –, o coordenador do Papo esclarece que além das proverbiais perguntas, haveria liberdade para argumentações, inclusive no terreno subjetivo, pessoal, etc. Uma estudante de Psicologia, por exemplo, narra os efeitos, as dores e as delícias de “Não falo com estranhos”, curta de Klaus Hastenreiter.

Em seguida, uma provocação – em forma de indagação – remetida à diretora de Tea for Two por uma mulher que notara a ausência de mulheres no Papo de Cinema. “Você sabia que você é a primeira mulher a sentar neste espaço desde que começou a Mostra?”. Foi o suficiente para apertar o botão e permitir a Julia Katharine verbalizar um grande descontentamento, não com a Mostra, mas como o machismo no cinema brasileiro. E ela fez questão de afirmar que, sim, tratava-se de um desabafo.

Segue aqui, na íntegra, a resposta à indagação-provocação:

“Eu fico muito incomodada com a falta da presença das mulheres aqui, não só aqui, mas em vários lugares do audiovisual, do cinema particularmente. Isso pra mim é coisa que tem que ser muito conversada, muito discutida, porque o cinema é extremamente machista, é um ambiente machista. É o ambiente onde o homem reina soberanamente. Aí eu convoco todas as mulheres aqui presentes, que estudam cinema, que façam filmes, que busquem criar coletivos, grupos de conversa para se pensar cinema, façam todo tipo de movimento para que isso mude, porque se nós ficarmos esperando que as coisas aconteçam, com movimentos pequenos, com pontuações em festivais, isso não vai mudar. Tenho essa impressão.

Estar aqui pra mim é um grande motivo de alegria, de orgulho, não só por mim, mas pelo que eu represento neste momento: estou aqui representando um grupo de mulheres transexuais e travestis, que nunca na história do cinema brasileiro tiveram esse lugar, de serem realizadoras, de serem roteiristas, de pensarem cinema... E porque será? Inclusive um jornalista me perguntou: “como é pra você ser a primeira mulher transexual premiada como realizadora”. Eu falei: ‘Ao mesmo tempo que é uma alegria, é uma merda. Porque nós estamos em 2018 e isso já tinha que ter acontecido lá atrás, porque eu tenho certeza absoluta que muitas mulheres trans já quiseram e sonharam em ser cineastas, serem roteiristas, serem atrizes, mas nunca houve um movimento que as colocasse dentro desse mercado, desse universo. Até porque quando se pensa no corpo trans, ele é o corpo-objeto de documentário, é personagem de documentário, ou então ele personagem de ficção, mas é interpretado por corpos cis. O que é até bom. Não é uma coisa com a qual eu me sinta ofendida, particularmente, mas pensando politicamente nesse movimento de inserção, de empregabilidade, eu acho que é bacana quando um diretor de cinema, um produtor, um roteirista, pensa assim: ‘Olha, temos esse roteiro, temos esse personagem trans, vamos trabalhar com a pessoa trans’. Ou: ‘Temos esse roteiro e vamos trabalhar com atrizes, enfim, sem pensar em tipos específicos, sem ser cis ou trans’. Porque seria muito massa a gente ver uma comédia romântica em que a protagonista pode ser uma mulher trans também interpretando uma mulher cis. Por que não, já que o contrário acontece sempre? Aí a gente tem que pensar não só na diversidade de gênero, mas na diversidade de corpos.

Uma coisa que tem me angustiado muito em relação ao machismo no cinema, nas comédias românticas, é que sempre tem-se pensado no corpo da mulher, da atriz, como uma mulher perfeita, dentro do que a sociedade heteronormativa definiu como padrão. Somos todas perfeitas, cada uma a sua maneira.

Todo mundo quer ser amado. Todo mundo inspira desejos, afetividade numa outra pessoa. A gente precisa começar a pensar em tirar o corpo da mulher desse lugar de padrão e se projetar coisas incríveis, e se pensar numa menina que não seja padrão heteronormativo protagonizando. Eu acho que posso estar falando alguma bobagem, alguma utopia, mas a minha utopia neste momento é colocar corpos que fogem do padrão para serem protagonistas de histórias.

Eu vi um filme chamado Reforma, do Fábio Leal, de Pernambuco, que é magnífico porque ele subverte esta ideia de que todo corpo deve ser padrão para despertar desejo. No Tea For Two eu resolvi interpretar o personagem trans porque todos os produtores para os quais eu apresentei o roteiro me diziam: “Ju, você precisa encontrar para a personagem da Isabela uma mulher trans que seja bem panicat, gata. Será que você vai achar essa atriz?”. Enfim, a sociedade heteronormativa cis não acredita que entre nós existam mulheres capazes de serem boas atrizes. E aí eu entendi isso como ofensa, fiquei muito mal, cheguei em casa, pensei: ‘eu tenho que subverter isso, eu tenho que começar por mim esse movimento de desconstrução no audiovisual, no cinema”. É um movimento utópico porque sou eu e mais cinco ou seis que fazem isso, mas é importante pra daqui a vinte anos a gente veja outros corpos na tela. E não só panicats, esses corpos.

O filme se transformou de uma comédia romântica pro melodrama porque a princípio era o protagonismo de um homem cis e duas mulheres. Enfim, eu tive um problema muito sério com o ator, comecei a me questionar sobre a presença dele no filme e sobre o quanto isso era complicado pra mim, pensando na narrativa, e aí eu resolvi mudar. E aí a Gilda, que faria a Isabel, virou a protagonista Silvia, e aí eu fiz um romance que, em São Paulo, falaram pra mim que é um filme translésbico, e eu nunca tinha escutado este termo (risos). Mas fiquei muito feliz com o resultado, porque acho que o filme, com esse protagonismo só de mulheres, ficou muito mais potente, eu me identifiquei muito mais com a história, apesar de não ser uma mulher translésbica, e também tem a questão da idade, que a gente também tem que problematizar... acho que todos os filmes, em sua maioria, são pensados para mulheres muito jovens, então você não vê muitos filmes com mulheres protagonistas com mais de 40 anos, e isso é um problema, porque essas mulheres existem, tem desejos, tem suas questões.

Então, vamos tomar esse lugar que é nosso, e que na próxima edição da Mostra Cinema Conquista existam mais mulheres, sejam cis ou sejam trans, na programação, debatendo e pensando o cinema. É isso.

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