Na Mostra Cinema Conquista, o Papo de Cinema da
terça-feira (3), no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, teve como tema “Das
utopias da ficção às distopias da realidade”. Entre as pessoas convidadas, Julia
Katharine – roteirista, atriz e diretora de Tea for Two, primeiro filme
brasileiro dirigido por uma pessoa trans acolhido no circuito comercial.
A certa altura, vencida a etapa do debate, passada a
palavra à plateia – ávida por manifestar-se dado o rico conteúdo da mesa –, o
coordenador do Papo esclarece que além das proverbiais perguntas, haveria
liberdade para argumentações, inclusive no terreno subjetivo, pessoal, etc. Uma
estudante de Psicologia, por exemplo, narra os efeitos, as dores e as delícias
de “Não falo com estranhos”, curta de Klaus Hastenreiter.
Em seguida, uma provocação – em forma de indagação –
remetida à diretora de Tea for Two por uma mulher que notara a ausência de
mulheres no Papo de Cinema. “Você sabia que você é a primeira mulher a sentar
neste espaço desde que começou a Mostra?”. Foi o suficiente para apertar o botão e permitir a Julia Katharine verbalizar um grande descontentamento, não
com a Mostra, mas como o machismo no cinema brasileiro. E ela fez questão de
afirmar que, sim, tratava-se de um desabafo.
Segue aqui, na íntegra, a resposta à
indagação-provocação:
“Eu fico muito incomodada com a falta da presença
das mulheres aqui, não só aqui, mas em vários lugares do audiovisual, do cinema
particularmente. Isso pra mim é coisa que tem que ser muito conversada, muito
discutida, porque o cinema é extremamente machista, é um ambiente machista. É o
ambiente onde o homem reina soberanamente. Aí eu convoco todas as mulheres aqui
presentes, que estudam cinema, que façam filmes, que busquem criar coletivos,
grupos de conversa para se pensar cinema, façam todo tipo de movimento para que
isso mude, porque se nós ficarmos esperando que as coisas aconteçam, com
movimentos pequenos, com pontuações em festivais, isso não vai mudar. Tenho
essa impressão.
Estar aqui pra mim é um grande motivo de alegria, de
orgulho, não só por mim, mas pelo que eu represento neste momento: estou aqui
representando um grupo de mulheres transexuais e travestis, que nunca na
história do cinema brasileiro tiveram esse lugar, de serem realizadoras, de
serem roteiristas, de pensarem cinema... E porque será? Inclusive um jornalista
me perguntou: “como é pra você ser a primeira mulher transexual premiada como
realizadora”. Eu falei: ‘Ao mesmo tempo que é uma alegria, é uma merda. Porque
nós estamos em 2018 e isso já tinha que ter acontecido lá atrás, porque eu
tenho certeza absoluta que muitas mulheres trans já quiseram e sonharam em ser
cineastas, serem roteiristas, serem atrizes, mas nunca houve um movimento que
as colocasse dentro desse mercado, desse universo. Até porque quando se pensa
no corpo trans, ele é o corpo-objeto de documentário, é personagem de
documentário, ou então ele personagem de ficção, mas é interpretado por corpos
cis. O que é até bom. Não é uma coisa com a qual eu me sinta ofendida,
particularmente, mas pensando politicamente nesse movimento de inserção, de
empregabilidade, eu acho que é bacana quando um diretor de cinema, um produtor,
um roteirista, pensa assim: ‘Olha, temos esse roteiro, temos esse personagem
trans, vamos trabalhar com a pessoa trans’. Ou: ‘Temos esse roteiro e vamos
trabalhar com atrizes, enfim, sem pensar em tipos específicos, sem ser cis ou
trans’. Porque seria muito massa a gente ver uma comédia romântica em que a
protagonista pode ser uma mulher trans também interpretando uma mulher cis. Por
que não, já que o contrário acontece sempre? Aí a gente tem que pensar não só
na diversidade de gênero, mas na diversidade de corpos.
Uma coisa que tem me angustiado muito em relação ao
machismo no cinema, nas comédias românticas, é que sempre tem-se pensado no
corpo da mulher, da atriz, como uma mulher perfeita, dentro do que a sociedade
heteronormativa definiu como padrão. Somos todas perfeitas, cada uma a sua
maneira.
Todo mundo quer ser amado. Todo mundo inspira
desejos, afetividade numa outra pessoa. A gente precisa começar a pensar em
tirar o corpo da mulher desse lugar de padrão e se projetar coisas incríveis, e
se pensar numa menina que não seja padrão heteronormativo protagonizando. Eu
acho que posso estar falando alguma bobagem, alguma utopia, mas a minha utopia
neste momento é colocar corpos que fogem do padrão para serem protagonistas de
histórias.
Eu vi um filme chamado Reforma, do Fábio Leal, de
Pernambuco, que é magnífico porque ele subverte esta ideia de que todo corpo
deve ser padrão para despertar desejo. No Tea For Two eu resolvi interpretar o
personagem trans porque todos os produtores para os quais eu apresentei o
roteiro me diziam: “Ju, você precisa encontrar para a personagem da Isabela uma
mulher trans que seja bem panicat, gata. Será que você vai achar essa atriz?”.
Enfim, a sociedade heteronormativa cis não acredita que entre nós existam
mulheres capazes de serem boas atrizes. E aí eu entendi isso como ofensa,
fiquei muito mal, cheguei em casa, pensei: ‘eu tenho que subverter isso, eu tenho
que começar por mim esse movimento de desconstrução no audiovisual, no cinema”.
É um movimento utópico porque sou eu e mais cinco ou seis que fazem isso, mas é
importante pra daqui a vinte anos a gente veja outros corpos na tela. E não só
panicats, esses corpos.
O filme se transformou de uma comédia romântica pro
melodrama porque a princípio era o protagonismo de um homem cis e duas
mulheres. Enfim, eu tive um problema muito sério com o ator, comecei a me
questionar sobre a presença dele no filme e sobre o quanto isso era complicado
pra mim, pensando na narrativa, e aí eu resolvi mudar. E aí a Gilda, que faria
a Isabel, virou a protagonista Silvia, e aí eu fiz um romance que, em São
Paulo, falaram pra mim que é um filme translésbico, e eu nunca tinha escutado
este termo (risos). Mas fiquei muito feliz com o resultado, porque acho que o
filme, com esse protagonismo só de mulheres, ficou muito mais potente, eu me
identifiquei muito mais com a história, apesar de não ser uma mulher
translésbica, e também tem a questão da idade, que a gente também tem que
problematizar... acho que todos os filmes, em sua maioria, são pensados para
mulheres muito jovens, então você não vê muitos filmes com mulheres
protagonistas com mais de 40 anos, e isso é um problema, porque essas mulheres
existem, tem desejos, tem suas questões.
Então, vamos tomar esse lugar que é nosso, e que na
próxima edição da Mostra Cinema Conquista existam mais mulheres, sejam cis ou
sejam trans, na programação, debatendo e pensando o cinema. É isso.

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